Customize Consent Preferences

We use cookies to help you navigate efficiently and perform certain functions. You will find detailed information about all cookies under each consent category below.

The cookies that are categorized as "Necessary" are stored on your browser as they are essential for enabling the basic functionalities of the site. ... 

Always Active

Necessary cookies are required to enable the basic features of this site, such as providing secure log-in or adjusting your consent preferences. These cookies do not store any personally identifiable data.

Functional cookies help perform certain functionalities like sharing the content of the website on social media platforms, collecting feedback, and other third-party features.

Analytical cookies are used to understand how visitors interact with the website. These cookies help provide information on metrics such as the number of visitors, bounce rate, traffic source, etc.

Advertisement cookies are used to provide visitors with customized advertisements based on the pages you visited previously and to analyze the effectiveness of the ad campaigns.

No cookies to display.

A efervescência da periferia e como o estado pode acabar com ela

Publicado em

A efervescência da periferia e como o estado pode acabar com ela

Pessoas na pobreza são subestimadas. Sim, a visão predominante da cidade enxerga aqueles com baixo poder aquisitivo como sujeitos passivos, pobres almas esperando a benevolente ajuda estatal para terem melhores condições de vida. A realidade não poderia ser mais distante do que isso.

Basta andar por qualquer bairro habitado predominantemente pelas classes D e E (para os padrões brasileiros) para se perceber o que os pobres são sujeitos ativos no processo de crescimento de si mesmos. Faça este exercício, caminhe por algumas ruas de uma favela, é provável que você encontre mais de um estabelecimento comercial como: salões de beleza, mercadinhos, fiteiros, lanchonetes e lojas de roupa. Muitos desses empreendimentos são realizados dentro das próprias casas dos moradores ou em pequenos anexos. Agora caminhe por outro bairro, dessa vez um habitado predominantemente pelas classes A e B, vê algo parecido? De forma alguma!

Seja como forma de complementar a renda ou sua fonte principal, é visível que a formação dessa imensa quantidade e variedade de estabelecimentos comerciais é o reflexo da grande capacidade empreendedora, da subestimada força de gerar renda e empregos que esses estratos da população possuem. Esta é a efervescência da periferia, a capacidade que os pobres têm de procurar crescer que resulta numa rede de crescimento mutua dentro da sua comunidade, é o pobre comercializando com o pobre e fazendo o pobre crescer. Pena que o Estado pode acabar com tudo isso.

Um dia, ao andar a noite pelo meu bairro, na periferia do Recife, resolvi contar a quantidade de lanchonetes e barracas de comida que existiam num espaço entre três ruas. Eram 11 ( onze!), 5 locais que vendiam pastéis/salgados, 3 lanchonetes, 2 bares, 1 espetinho. Refletindo um pouco posteriormente percebi que nenhum daqueles estabelecimentos seguia as normas do Estado. Oras, se a ANVISA resolvesse cumprir ao pé-da-letra suas normas e regulações TODOS aqueles locais seriam fechados, e as famílias, pobres, privadas de sua fonte de renda principal ou auxiliar.

O mesmo aconteceria com todos os outros estabelecimentos, lógico que nenhum deles possui as taxas de licenciamento, alvarás, vistoria de regularização frente ao corpo de bombeiros etc. O Ministério Público do Trabalho também faria um belo estrago com todos aqueles funcionários informais, quiçá jovens parentes que ajudam seus familiares no comércio, com cargas horarias flexíveis e nem de longe obedecendo às idosas leis trabalhistas brasileiras¹, estes seriam demitidos, aumentando a massa dos jovens desempregados, ou veriam seus empregadores fecharem frente às instancias burocráticas exigidas.

Para se ter ideia da via crucis percorrida por um  pobre empreendedor, para regularizar e montar seu negócio, resolvi trazer aqui de forma simplificada o caminho a ser percorrido por ele, tomemos como exemplo uma pequena sorveteria: Junta Comercial; Secretaria da Receita Federal (CNPJ); Secretaria Estadual de Fazenda; Prefeitura do Município para obter o alvará de funcionamento;  Enquadramento na Entidade Sindical Patronal (empresa ficará obrigada a recolher por ocasião da constituição e até o dia 31 de janeiro de cada ano, a Contribuição Sindical Patronal);  Cadastramento junto à Caixa Econômica Federal no sistema “Conectividade Social – INSS/FGTS”; Corpo de Bombeiros Militar. UFA!

Acabou não é? Bem, o registro sim, falta só colocar em funcionamento, e para isso ele precisaria apenas seguir : um decreto-lei, uma lei, duas portarias e sete resoluções da ANVISA. Cada um desses documentos tendo vários e vários parágrafos exigindo as mais diversas exigências tais como: Telas milimetradas, caixas de gordura e esgoto, temperatura do produto final igual ou menor que -12°C (adicione aqui mais centenas de exigências referenciadas em mais dezenas de resoluções, portarias e leis). É, senhores, se para uma pequena sorveteria montada com o esforço e poupança suados de um morador da periferia tais exigências nos parecem irrealizáveis, não vou nem começar a falar da senhora que vende sacolé… (4)

Restaurante da Dona Lourdes a alguns metros da Sorveteria Suíça na periferia
Restaurante da Dona Lourdes a alguns metros da Sorveteria Suíça

Claro que este imenso mercado consumidor chama a atenção de outras empresas. Noticias mostrando a ida de grandes franquias para a periferia são frequentes (talvez menos agora em vista de crise), apenas estas grandes redes conseguem se expandir em meio a reserva de mercado imposta pelos muros regulatórios do Estado Brasileiro. O caminho inverso, no entanto, é muito mais difícil.

Os pobres possuem duas opções para crescer: ou enfrentam o mar burocrático, perdem capital de investimento nos meandros das repartições publicas, tem seus preços aumentados e invariavelmente acabam tendo que mudar o seu público-alvo para consumidores com mais renda (quebrando a rede de ajuda mutua); ou então crescem na informalidade, sem acesso a crédito ou possibilidade de fazer transações  oficiais com outras empresas, até o limite em que passam a chamar atenção do Estado e este os derruba com uma multa, interdição ou até prisão, tudo dentro da legalidade das normas e Leis.

Até mesmo simples vendedores de frutas são tratados como criminosos, tendo sua “carga ilegal”, simples frutas, apreendidas. Este caso aconteceu em Sorocaba recentemente e casos semelhantes ocorrem nos mais diversos locais do Brasil. São pobres em busca de seu crescimento e sustento, oferecendo produtos e serviços desejados por outras pessoas, mas marginalizados, impedidos, atrapalhados e escanteados para a ilegalidade.

A periferia brasileira é um mar de oportunidades, e os pobres brasileiros são exímios navegadores em busca de sua ilha com um lugarzinho ao sol. Pena que o Estado teima em ser uma tempestade.

Anderson Alares participou do Programa de Coordenadores do Students For Liberty.

Este artigo não necessariamente representa a opinião do SFLB. O SFLB tem o compromisso de ampliar as discussões sobre a liberdade, representando uma miríade de opiniões.

POSTOS RELACIONADOS

POSTOS DE TENDÊNCIA